quinta-feira, 21 de julho de 2011

Gozando com o olhar do outro nos anos 1950

desde bem bebê:

... mas, também, à direita, no Santo Antonio em Alagoinhas, ao lado do alpendre da Vó Dindinha Jesuína (de matuto arrumadinho, com a irmã)...

... à esquerda (no Clube Fantoches da Euterpe, premiado...) e abaixo, também de folião carnavalesco...





... e em concerto na sinagoga (do Campo Grande, em Salvador, aluno de Helena Zolinger, o 2º a partir da esquerda na primeira fila, só curtindo... sem tocar...), sempre nos anos 1950:
garoto pequeno sub-burgês ("índio" de Itapagipe, em fotos do tio materno e padrinho Raul Nobre Martins), posando e gozando, também e ainda nos anos 1950:

e posando (meio ao acaso -?-), de modo expresso (com a irmã, na porta de casa, de mãe Dulce e pai Romeu, no Largo de Roma, de Itapagipe, hoje a Praça de nossa velha vizinha Irmã Dulce) e flagrando o fotógrafo, mesmo portando algo que lê (ao lado do o pai, na Rua Chile ou da Misericórdia, de Salvador BA), sempre nos anos 1950 (ainda sem o abuso????)...

O primeiro número do Verbo Encantado

    A ideia é publicar na íntegra, com apoio técnico da Mestre em História pela UEFS BA, neste meu (nosso) blog, cada um dos 22 números de nosso jornal, um por dia, começando hoje... Aparentemente, sou a única pessoa a possuir uma coleção completa do jornal que, para pagar as dívidas que fiz com ele, me custou quatro anos de trabalho (três dos quais morando num minúsculo quarto de serviço, onde só podia abrir os braços quando sentado na cama). Meus sócios Alvinho e Ceomara e suas famílias também pagaram sua parte da dívida. Agora, sem débitos e detendo os direitos de edição, compartilho com vocês este que me parece precioso material sobre o início dos anos 1970, a contracultura, Salvador etc. Cada página do jornal é uma imagem, sobre a qual, se você clicar duas vezes, pode ampliar, ver e ler tudo.
    No Verbo Encantado, paradoxo da palavra da razão (verbo), que distingue uma coisa da outra, adjetivada pela palavra que remete ao que não é razoável, à confusão e à maravilha, ainda que naqueles tempos de chumbo no Brasil, eu assino Armindo Jorge Bião, Almir Cunha, Alfredo Gutmann, Armindo (simplesmente) e (cúmulo da pretensão...) Nós, se bem me lembro de tudo... Antes, em 1967 e 1968, quando fui ator de João Augusto Azevedo no Teatro Vila Velha e de Luciano Diniz no Grupo de Arte da Faculdade de Filosofia, eu era Jorge Bião. Assim, também, me chamam (ou chamaram) Miminho, Mimo de Céu, Bico, Grão de Bico, B, Bi, Binho, Baianinho Maricota da Anunciação e Armindo Bião. Sou pessoa do intermédio (não sou só um nem só outro), de gêmeos, Hermes, Mercúrio e das encruzilhadas, ator e poeta, com mil caras e mil nomes...





















quarta-feira, 6 de julho de 2011

Em breve aqui: o verdadeiro Verbo Encantado


     O Verbo Encantado (cujos 22 números, catalogados e digitalizados pela Mestre em História pela UEFS BA Manuela Muniz, serão publicados aqui, um a um, neste blog) foi um jornal semanal, com dimensões de tablóide, do qual foram impressas e divulgadas nacionalmente 22 edições, 20 delas semanalmente, entre outubro de 1971 e março de 1972, e outras duas (as últimas) de forma irregular, em junho e julho de 1972. Os quatro primeiros números do Verbo tiveram 20 páginas e todos os demais 24. O jornal foi editado pela Alef Empresa Jornalística Limitada, criada para este fim específico e formada por três sócios (Álvaro Guimarães, Armindo Bião e Ceomara Paim Couto), que assumiram empréstimos bancários para suas primeiras edições. A intenção era que, posteriormente, o jornal fosse financiado pela venda de exemplares em bancas de revistas e pela inserção de anúncios publicitários. Mas o fracasso financeiro foi total.
     Suas despesas foram, principalmente: os custos de impressão; o aluguel de uma pequena casa, de, aproximadamente, vinte metros quadrados, numa "avenida" de casinhas populares, situada numa escadaria entre a Rua Visconde do Mauá e a Avenida Contorno, em Salvador, Bahia (Rua Visconde do Mauá, nº 53, casa 3); o uso de uma linha telefônica e de energia elétrica; e o salário de um empregado, que atuava como mensageiro e um pouco como "faz-tudo".
     Sua receita se restringia, praticamente, às vendas de exemplares em bancas de revistas, uma vez que os pouco numerosos anúncios (9,6 anúncios, em média, por número), eram, principalmente, anúncios classificados de roupas (usadas em matérias do próprio jornal) e de equipamentos e serviços fotográficos (idem), por exemplo, caracterizando mais uma economia de escambo que outra coisa. Os anunciantes, como pequenas lojas de roupas e de material, além de bares e restaurantes, também eram bastante modestos, apesar de ter havido o caso de uma companhia aérea que fez 16 inserções publicitárias de página inteira.
Em relação à venda em bancas de revistas (embora não disponhamos de números precisos), o jornal passou por diferentes fases. Seus seis primeiros números saíram, oficialmente, com 10.000 exemplares, mas com, apenas, 5.000 exemplares impressos, efetivamente e destinados à distribuição, exclusivamente, no Estado da Bahia. Sabe-se, inclusive, que o Verbo teria, por vezes, ultrapassado, em vendas (na Bahia), o semanário O Pasquim, publicado no Rio de Janeiro e pioneiro, no Brasil, deste tipo de imprensa.
      A partir do número sete, o Verbo começou a ser distribuído, pela Distribuidora de Publicações Souza S. A., também, no Rio de Janeiro, e, a partir do número oito, igualmente em São Paulo. Do número catorze ao dezenove, o Verbo circulou na Bahia, como um encarte da Edição Especial de domingo do jornal diário Tribuna da Bahia, sendo, simultaneamente, distribuído em todo o país (exceto Amazonas) como um tablóide avulso, com a tiragem divulgada de 50.000 exemplares. Nesse período, os editores do jornal, além de suas despesas habituais de manutenção e das dívidas com os empréstimos bancários já feitos, começaram a se comprometer a pagar, também, os custos de impressão do jornal nesta nova fase, à EDISA, a Editora da Bahia S. A., que editava a Tribuna da Bahia.
     O número vinte do Verbo (de março de 1972) foi o programa do primeiro concerto de Caetano Veloso e Gilberto Gil após seu regresso de Londres, que aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, numa promoção da Rede Globo de Televisão Globo e da gravadora Phonogram, que produziam seus discos. Na verdade, a Globo e a Phonogram pagaram apenas a impressão desse número, já que toda sua produção foi realizada em Salvador (exceto pela diagramação), sob a responsabilidade (incluindo os custos) dos editores do jornal. Esta edição especial, assim como as outras duas que se seguiram e que foram, estas últimas, produzidas e impressas no Rio de Janeiro, não indicam o número de exemplares impressos.
       Por não ter como pagar os empréstimos bancários e as despesas de impressão do Verbo, desde seu início, a empresa Alef faliu e seus sócios (inclusive familiares de alguns deles) precisaram de, pelo menos, três anos, para saldarem todas as dívidas juridicamente cabíveis. Os jovens editores sócios da Alef, que tinham entre 21 e trinta e poucos anos nessa época, eram mesmo inexperientes em gestão e foram, facilmente, considerados drogados irresponsáveis. O que era compatível com o espírito da publicação, identificada com a imprensa dita alternativa, a contracultura, a cultura underground e marginal, que misturava oralidade cotidiana e gírias, para tratar, sobretudo, de temas ligados à música (sobretudo ao rock), ao cinema, ao misticismo, à contracultura e à vida cotidiana jovem do verão de Salvador, com importantes inserções relativas à negritude.
     Seus textos incluíam, além de reportagens, poemas, experiências literárias, contos, histórias, entrevistas, cartas e respostas, e suas ilustrações, muita fotografia, mas também desenhos e quadrinhos, distanciando-se, assim, bastante, do padrão editorial da grande imprensa do período e até mesmo de O Pasquim. O Verbo era impresso em off-set e preto e branco, com raras inserções da magenta, em molduras de frisos em capas (nos números 14, 15 e 19) e num detalhe único (um sol vermelho) de um desenho do artista Ângelo Roberto, publicado em páginas duplas centrais.
     O público consumidor era, provavelmente, composto de jovens de classe média e outras pessoas interessadas nas artes (sobretudo a música), em misticismo, contracultura e cultura baiana, tratada em muitas reportagens sobre o povo da cidade da Bahia, os mercados populares, as festas de verão (incluindo o carnaval) e as praias da Bahia. O período de outubro de 1971 a março de 1972 ficaria conhecido como o "verão do desbunde", quando Salvador (juntamente com o povoado praiano de pescadores e "hippies", do litoral norte baiano, Arembepe) se tornou um ponto de passagem obrigatório para todos os intelectuais, jornalistas e acadêmicos "em transe", na expressão de Caetano Veloso, em um texto escrito para o Verbo (1972, p. 5). E nesse contexto, o próprio Verbo era um ponto de referência e de visitação, a alguns passos da Praça Castro Alves, centro então inconteste do carnaval baiano, e não muito distante da praia do Porto da Barra.
     A emblemática do jornal compreendia um logotipo verbivocovisual e a imagem de uma mulher negra. O primeiro incluía uma boca aberta, com a língua para fora e um olho em seu interior, evocando a famosa marca dos Rolling Stones, a oralidade tradicional e a pesquisa em artes gráficas. Quanto à mulher negra baiana, sua imagem primeira (na capa do número um do jornal) era descrita assim; "Nasceu com 'Barravento' de Glauber Rocha, fêz (sic) teatro, agora é mulher VERBO. Flora, bela, magra, maga. Santa. Flora, na sua estação, silvestre e negra. E nossa imagem. Flora, internacional, modêlo (sic) e manequim".
     Essa pessoa representava todos os aspectos estéticos, lúdicos, artísticos, místicos, ecológicos e sociais do Verbo Encantado, como opção do Verbo, num momento da conjuntura sócio-política nacional em que outras pessoas, da mesma geração, haviam optado pelo estritamente político. O número cinco do jornal anunciava a morte de Flora, de uma doença associada às condições precárias de higiene e habitação de grande parte da população brasileira, a doença de Chagas. Flora vivia em local bem próximo do Dique de Tororó, onde mora a misteriosa Oxum. O Verbo Encantado lhe sobreviveu, apenas, mais alguns meses.
     O Verbo, por seu prenome, parece representar uma busca pela modernidade. De fato, seu primeiro editorial afirma "verbo é o que distingue uma coisa da outra". Trata-se bem aí da busca do racional e do razoável. No entanto, em seu sobrenome, na palavra Encantado, define-se o substantivo "verbo" em combinação com o "mito" e, portanto, como algo, aparentemente, contraditório com essa ideia bem lógica de modernidade, mas bem, também, de acordo com um novo ar do tempo, bem mais complexo, que parecia, então, querer surgir.
Referências
     Editorial. In Verbo Encantado, n. 1. Salvador: Alef, 1971, p. 2.
     MOREIRA, Sonia V. Retratos brasileiros: 20 anos de imprensa alternativa. In Antologia Prêmio Torquato Neto Ano 2. Rio de Janeiro: Rioarte, 1984 (P. 22).
     PEREIRA, Carlos A. M. O que é contracultura. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 97.
VELOSO, C. Caetano Veloso solta o Verbo. In Verbo Encantado, n. 21. Salvador: Alef, 1972, p. 5.
     VILELA, Gileide et alii. Os baianos que rugem: a imprensa alternativa Na Bahia. Salvador:
EGBA, 1996.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Armindo vem de Jacó, Ahmed, Armínio ou Hermann?



 




 

Em 1990, soube por um colega professor da Universidade de Barcelona, na Catalunha, Espanha, que seu prenome Jaume (pronunciado para meus ouvidos brasileiros como Djalma) seria uma variante de Jacó. Ele me explicou que escrito em latim o nome Jacó fora lido como Iaco e, logo, Iago. E isto meio em francês, meio em espanhol, meio em catalão (três meios mesmo, um exagero de possíveis malentendidos): Jacó/ Iago teria sido o patriarca bíblico matriz (paterna) das 12 tribos de Israel (que comprou a primogenitura de seu irmão Esaú, trabalhou 14 anos para se casar com a amada Raquel e sonhou com uma escada de anjos). Segundo Jaume, de Iago teria surgido em espanhol Santiago (Santo Iago), do centro de romarias europeias medievais e contemporâneas, e em inglês James, de onde viriam Jaime e seu Jaume. E, concluímos juntos, também nossos Djalma e Dijalma: Jacó } Iaco } Iago} Santiago } James } Jaime } Jaume } Djalma } Dijalma; e eventuais Jamal.
Também em 1990, por um conhecido magrebino francófono, soube que seu prenome Hamal seria uma variante (ou vice versa, com "agá" mudo ou pronunciado como "erre" ou transformando-se em "jota") de Jamal, Jamel, Jamil, Kamil, Kamel, Kamal, Ahmad, Ahmed, Ahmid, Hamid, Hamed, Hamal e, pensamos juntos, de nossos Jamile, Camila, Camilo e (por que não?) de meu Armindo, recorrente ao menos seis vezes em minha família Martins Bião. Sei da existência de personalidades históricas de nomes romanos Armínio/ Arminius e germânicos Armin/ Irmim/ Hermann e, também, de muitos Arlindos e de outros Armindos, mas desconheço a etimologia precisa de meu prenome...
Dos seis Armindos de minha família, cinco são Bião. O outro é Armindo Valverde Martins, nascido em 1894, tendo escrito seu último testamento em 1947 e falecido pouco depois. Sem filhos, foi casado com sua sobrinha Elisabeth (1912-19.11.1972 ou 1973), que em solteira assinava Martins Bião e, depois, Bião Martins, Armindo deixou de herança o Cine-Teatro Itabuna, um acordeon (harmônica Hohmer) e mais alguns imóveis e objetos, entre os quais eu conservo uma caderneta de notas de capa de couro da Olympiade Berlin 1936, uma coleção de selos alemães que testemunha a hiper-inflação dos anos 1930 e a força da propaganda nazista, um caderno de poemas publicados e dois álbuns de fotografias, de seus cinemas na região do cacau no sul da Bahia (Cines Teatros Itabuna e Ilhéos, Cine Pery, Elite Cinema e Victoria Palace), de sua viagem de navio à Alemanha para as Olimpíadas, além de outras de amigos, familiares, Ilhéus, Itabuna e Feira de Santana.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Luas de mel no Ceará

Meus pais Romeu Martins Bião e Dulce Aleluia de Carvalho Bião se casaram em 16 de julho de 1949, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador, Bahia. Logo em seguida, seguiram para Fortaleza, para a implantação da filial local da Kosmos Capitalização, empresa na qual trabalhavam há algum tempo e onde se haviam conhecido, em Salvador. Viveram por quase um ano num apartamento de andar numa das muitas casinhas de dois andares de um conjunto então recente no bairro de Jacarecanga (foto à direita), onde se chega pela Avenida Filomeno Gomes (foto à esquerda do final dos anos 1940).

A foto maior acima (do famoso estúdio Aba Film Ceará), na Praia de Iracema (com minha mãe vestindo um "engana mamãe" vermelho, meu pai de short azul), registra sua lua de mel e deve ser de julho ou agosto de 1949. Eu devo ter sido gerado logo depois, pois nasci em Salvador, em 1º de junho de 1950, alguns dias depois de seu retorno à Bahia. No final dos anos 1980, estive com ambos em viagem de visita evocativa e emocionada a sua casa cearense.

Em 1974, vivi algumas de minhas primeiras mais marcantes experiências pessoais em Fortaleza, quando estive hospedado no apartamento da Aldeota da Doutora Auri Moura Costa, mãe de minha amiga atriz e música Maria Idalina Ismael. Eu já conhecia Dona Auri das páginas da revista "O Cruzeiro", de "O impossível acontece": quando Juiza no Crato, ela teria liberado os presos para as festas de fim de ano, para fazer uma reforma na cadeia local; e todos teriam depois retornado. Seu nome designa hoje o presídio feminino de Fortaleza. Conversávamos muito e ela me deu um livro de sua autoria. E eu me sentia em casa...

Em Fortaleza, sinto-me assim, em casa, acolhido, no ventre de minha mãe e da mãe de minha amiga e colega. Também ali quase vivi uma lua de mel...

Chapéus, cravos brancos e guardas-chuvas (Pedrão 1900s)




Na foto maior, Armindo Pedreira Dantas Bião (meu avô paterno, 1865-1931), está em pé, com revólver na cintura e, na mão esquerda, um cravo branco e um guarda-chuva. Sentado, a sua direita, também com um guarda-chuva, está o famoso Padre Carneiro (Vigário Cônego José Batista da Silva Carneiro), autor da "Árvore genealógica das principais famílias do Pedrão", da qual aliás consta a nossa. Os outros na foto são, segundo minha tia Mariath Martins Bião (que me doou os documentos acima), Zezé Godinho (sentado, segurando um guarda-chuva) e Amintas Carneiro, estes ambos com cravos brancos na lapela. Segundo ela, esta foto registra a preparação para uma caçada (ou talvez uma farra) e seria de antes do casamento de meu avô em 1903, mas já provavelmente do início do século XX. Contudo, creio tratar-se da preparação para um casamento, pelos cravos brancos (para padrinhos), pelos guardas-chuvas (sugerindo deslocamento) e presença do famoso Padre, que fez tantos casamentos e batizados pelo Pedrão afora...

O convite, ou melhor, a "participação" do casamento de meus avós paternos anuncia a data de 24 de fevereiro de 1903, a cidade de Irará (onde chegou a haver a Praça Armindo Bião, abaixo, hoje Praça da Bandeira) e a residência na Fazenda Desterro.

O "santinho" de deputado é provavelmente de 1908 e deve ter precedido a nomeação da praça (abaixo):

O cravo representaria o amor puro e latente, e também a liberdade! Os guardas-chuvas anunciam chuva... e os chapeus masculinidade... asssim como o cravo seria a flor dos homens, tradicional, no altar, na lapela do noivo (vermelho, siginificando que se vive para a pessoa amada) e dos padrinhos (branco, de se estar com força e em paz) e, também, presença na essência de perfumes masculinos...

terça-feira, 14 de junho de 2011

A paixão pelo espetáculo (inédito de abril 2011)

Com as caretas de Maragogipe, no último carnaval, brinquei e trabalhei, como se faz em artes do espetáculo, ainda que, no Brasil, brinquedo, brincadeira, brincante e brincador sejam para amadores. Profissional do teatro brinca em inglês (plays), francês (joue) e alemão (spielt), mas, em português, trabalha, não brinca em serviço. Decerto porque os primeiros profissionais da cena, como da música e das artes visuais, por aqui, eram escravos e libertos, negros e mestiços mais escuros.

Lá, terra de minha mãe Dulce, Vó Evangelina e Bisa Veneranda Grata (filha de padre), onde costumo ir para os sambas de roda de São Bartolomeu e devo voltar para o canto da Vozone e o Descimento da Cruz da Paixão, é um belo laboratório de pesquisa. Há pouco, seu carnaval virou patrimônio imaterial da Bahia e eu pude este ano confirmar um maior orgulho de ser maragogipano (lembrando o de ser baiano, de que já se falou). Lá ainda (?) existe Secretaria da Cultura e Turismo e sua marca são as máscaras, símbolo maior das artes do espetáculo e da própria humanidade.
Cláudio Pestana e Gabriel Rodrigo Carvalho Souza operam o descenso em foto de Júnior de Major.


Ser pessoa (do teatro grego – persona – máscara), pela tradição cristã e romana, é se ter direito a nome e cara reconhecidos. E é o olhar do outro que legitima a pessoa, alimenta o artista e dá prazer ao mascarado.
Ser sedutor é estratégia cotidiana, ordinária, da qual se tem pouca consciência (o que chamo de teatralidade). Em momentos extra-ordinários, como o carnaval, brinca-se: "você me conhece?". Esconde-se o rosto, muda-se postura e voz, recorre-se ao grotesco e ao sublime mais incomuns na pessoa. Mas, em dado momento, o mascarado se revela, quebra o encantamento e goza o encontro.
Os outros são luz para cada um de nós. Vencer a solidão e buscar luz é sinal de vida. A tragédia recente de Realengo nos lembra: isolar-se e buscar a morte é o contrário. Plantas buscam luz. Animais (inclusive humanos) buscam vida e gozo nos outros (os humanos de modo bem consciente), embora pássaros e abelhas, em seus rituais, também o façam, como cantou Cole Porter.
A paixão pelo espetáculo é humana, mas a desconfiança intelectual em relação ao espetáculo é enorme. Talvez, numas culturas, ame-se mais o espetáculo que em outras. Salvador e seu Recôncavo, por exemplo, devem estar entre as primeiras. O carnaval de Maragogipe e sua Semana Santa resumem bem isso. É certo que o carnaval brasileiro, entre o fim do império e o início do século XX, tentou abandonar a sujeira e outras inconveniências do entrudo, substituindo-as pela participação familiar e de mascarados, à moda europeia. Lembrei-me muito do que vivi em Nice, França, em 2009, este ano em Maragogipe, ainda que cá com álcool nas ruas e exibido prazer no contato pessoal, talvez por nossa intimidade com o espetáculo, já que "baiano não nasce, estréia" etc.
Lembro-me de, com sete anos, ter visto de uma janela da Casa de Gregório de Mattos, já então a Federação Espírita Baiana, na Semana Santa de 1958, o espetáculo da Escola de Teatro da Universidade da Bahia, A Via Sacra, de Henri Ghéon, apresentado num palco armado em torno do Cruzeiro de São Francisco. No início, os atores saíam da porta principal da famosa igreja barroca. Cantava o Coro dos Frades do Convento. As fotos hoje testemunham a multidão então presente, neste barroco baiano vivo de nosso Centro Histórico (por que chamá-lo de Antigo, se nem os tais italianos o são?). O da cidade da Bahia, barroco e, historicamente, moderno, é como seus pares, um Centro Histórico, ora!
Mas multidão ainda maior ia ao Dique do Tororó, durante cinco dias a cada ano, para a Encenação da Paixão de Cristo, na primeira metade da década passada, atualizando a vocação barroca baiana. Fico feliz de saber que haverá espetáculo monumental nesta Semana Santa na Concha Acústica do TCA, mas nossa cidade merece mais, quem vive nela e quem a visita, sobretudo na baixa estação, já que a alta está cheia de espetáculos.
Hoje as cidades são os maiores teatros. E a barroca Salvador tem vocação e experiência. O que falta? Artistas e técnicos, com certeza, não!