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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

De como a revista mensal oficial de turismo Viver Bahia (1973/ 75) me ajudou a pagar o jornal semanal de contracultura Verbo Encantado (1971/ 72), a cantar com Luiz Gonzaga e a aprender com Agostinho da Silva...

Conheci o São João de Cachoeira em 1968 (ou 1969?), com Verinha Lessa, Luciano Diniz e Jacinto Prisco, cuja família nos hospedou pertinho da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Monte: festa do interior aconhegante.
Em 1972, através de Verinha, conheci Roberto Pinho, o grande estimulador de tantas coisas de interesse cultural no Brasil, que vivia como guardião do Chalé dos Guinle (no alto do Morro Deus Menino em São Félix),  construído em 1907, para abrigar pessoal da Represa de Bananeiras a montante de Cachoeira (entre os quais Eduardo Guinle e Américo Simas)...
O chalé era um verdadeiro palacete, cercado de varandões e vasto pomar com mangueiras, e pertencia desde 1967 a George Agostinho da Silva, o grande mestre português (de quem cheguei a assistir aulas no Palácio da Reitoria da Universidade da Bahia em Salvador, em 1966, entre meus 15 e 16 anos, num curso de extensão organizado por Valentin Calderón de la Vara, de introdução à América Latina)...
Filósofo, poeta e ensaísta, idealizador do Museu do Atântico Sul, professor Agostinho ensinara, ainda nos anos 1950,  filosofia do teatro na Escola de nossa Universidade, criara (além das universidades de Brasília e de Santa Catarina) o Centro de Estudos Afro-Orientais da Bahia e, a partir de 1961, assessorara formalmente o governo federal em sua diplomacia internacional...
Pois então: estava tendo início na Bahia nesse comecinho dos anos 1970 uma política governamental de revitalização de Cachoeira e São Félix... e o São João tinha se transformado em evento de um mais vasto progama de intervenções públicas... muita gente (inclusive Caetano Veloso, Gilberto Gil, Helena Inês, Rogério Sganzerla e muitas pessoas que eu conhecera em Londres...) passaram o São João de 1972 ali, nas duas alas do chalé (então perfeitamente habitável) e em sua parte central de dois andares, alguns poucos, em barracas armadas nos jardins... o que seria um porão era imenso e também me lembro de dois enormes salões de banho (com banheiras de pés e janelões para os varandões)... muitos de nós comíamos em jejum ameixa salgada e, à noite, maniçoba...
Na programação, além da reza de Julieta Julião e do Samba de Roda Suerdieck de Dona Dalva, teve (entre muito mais) um show produzido por Roberto Santana de Luiz Gonzaga, que convidou quem soubesse cantar um jingle de propaganda que gravara para subir ao palco e cantar com ele, mas ninguém apareceu.... eu cantarolei perto de Gil e Paulo Catuaba (pai muçumurim, cantado por Gil), que me levaram a me oferecer... fui, cantei com Gonzagão "abra a sua caderneta de poupança e no futuro tenha confiançaaaaaa" e vi de perto a sanfona com as letras gravadas em prata "A voz do povo"... aí ganhei uma caderneta de poupança de 50 cruzeiros e vislumbrei o início do pagamento de minhas dívidas com o Verbo Encantado...
De fato, fiquei mais uns dias no chalé, colaborando com Roberto Pinho e Nando (citado na letra da canção "Meu nome é Gal"), na pós-produção da festa, que incluía a Feira do Porto, o São João propriamente dito e a celebração da vitória local na Guerra da Independência, de 25 de junho... e pudemos conversar muito... assim surgiu o convite de Roberto para que eu fosse trabalhar na BAHIATURSA, no grupo que ele estava então formando para cuidar de pesquisa e produção editorial, na esteira do projeto iniciado por François Benhamou... o que resultou na revista Viver Bahia, palavras que proferi juntas para isso, na esteira do Verbo Encantado, onde eu fizera o mesmo, mas como parte agora de um grupo também liderado por Alex Peirano Chacón, com Enéas Guerra Sampaio, Toinho Cientista (depois eu levaria amigos, Luciano Diniz, Carlos Ribas, Aristides Alves, Marco Antonio Queiroz, José Cerqueira Filho, da aventura do Verbo)... buscava-se afirmar a singularidade baiana, em termos de turismo, e fugir do tradicional SSS (sex, sun and sea)... e viu-se que seria bem a forma de viver dos baianos que deveria ser o foco de tudo...
De 1972 a 1975, além de trabalhar ao lado de Antonio Miranda em vários outros sãos jões e feiras do porto em Cachoeira, de viajar muito por toda a Bahia e produzir diversos folhetos, fui editor de 21 números dessa revista (oficial, mas com linguagem e diagramação bem experimentais, talvez até "algo desbundada", como o Verbo...)... como seu número 21 se dividia em dois cadernos (um com reportagens e outro só com informações sobre serviços), lembrando-me de professor Agostinho, reconheci os mesmos 22 arcanos maiores do Verbo Encantado... aliás, aquele chalé possuía (hoje está em ruínas e há anos que não entro lá) muitas insígnias e ícones cabalísticos, panteístas e milenaristas, que curtíamos tanto descobrir, inclusive com Raimundo Profeta...
Com o velho professor Agostinho, nascido em 1906 e falecido em 1994 (cuja popularidade na Lisboa da passagem do segundo para o terceiro milênio me surpreendeu, quando um motorista de táxi, 'assim, do nada', citou o professor que vira há apenas alguns anos na televisão portuguesa), aprendi que sua "ética da renúncia" lhe fizera trabalhar ativamente até quase os 90 anos...
Mesmo apenas com 61 anos, oro em me disciplinar para poder chegar a algo mesmo de longe parecido com isso... e começo em breve a postar aqui os "22" números Viver Bahia...