Quando vi, já nos anos 1970, em Salvador, o filme La Ronde de Roger Vadim (com Jane Fonda, Anna Karina, Jean-Claude Brialy e Maurice Ronet), de 1964, fiquei fascinado pela ideia, originalmente uma peça teatral (Reigen) do escritor vienense de origem judia Arthur Schnitzler, escrita em 1897, publicada em 1903, censurada em 1904 e enfim montada em 1920 (Berlim) e 1921 (Viena).
São 10 pequenos diálogos para um homem e uma mulher, que mantêm relações sexuais. O espectador assiste as preliminares, o jogo de sedução e poder, mas o ato sexual não é encenado. A ronda consiste no fato de que cada um dos personagens (de todas as classes sociais) contracena com dois parceiros sucessivos e, assim, aparece em duas cenas consecutivas, o último a aparecer contracenando com o primeiro. Schnitzler é um dos expoentes da Viena-fim-de-século (XIX), quando a velha capital do império austro-húngaro ficou como uma cabeça sem corpo, reunindo grandes artistas e cientistas que mudariam a história da cultura ocidental, com muito escândalo... que hoje é quase norma... Michel Maffesoli usa-a como exemplo do anômico que vira canônico... A ronda retrata e revela tudo isso...
Depois descobri existirem mais de uma dúzia de outras versões cinematográficas dessa famosa peça, entre as quais se destacam as de Max Ophüls, de 1950 (com Jean-Louis Barrault, Gérard Philipe, Simone Signoret e Danielle Darrieux) e de Otto Schenk (com Maria Schneider, Helmut Berger e Senta Berger), de 1973. Mais recentemente, soube de outro projeto baseado na mesma peça, para 2012, de Fernando Meirelles.
Durante meu mestrado nos EUA, nós, que éramos um grupo de 10 alunos (5 homens e 5 mulheres), montamos essa peça como exercício de aula, porque bem de acordo com o elenco disponível. Fiz o papel do poeta, que faria de novo em Salvador na montagem Ciranda, apresentada na imprensa como o lançamento da Companhia de Teatro da UFBA, em 1984 (em meio a greves e sem grande repercussão), cujo programa se encontra aqui, com recortes de jornal e uma folha de contatos de fotos.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A torre em concurso
Em 1984, a peça do dramaturgo brasileiro Joaquim Manoel de Macedo sobre teatro e política parecia uma boa aposta, após meu retorno do mestrado em interpretação teatral... quando, ansioso por dar aulas do que praticara tantos anos e acabara de estudar bem, recebi como incumbência, na UFBA, dar aulas de indumentária e história do traje para alunos da Escola de Teatro e de elementos de teatro para alunos de outras unidades (o que acabaria por se revelar bem estimulante, ainda bem)... mas o choque foi tremendo... e o resultado (meio?) pífio...
Eu ainda faria em Salvador nessa época quatro espetáculos (entre 1984 e 1985), mas já começava a matutar em ir à busca do théâtre de la jeune lune, miragem que justificaria um doutorado em Paris, em antropologia social e sociologia comparada...
Atuei então com o pessoal da Medicina Preventiva (Naomar de Alemida Filho et al) em receptivos de bolsistas norte-americanos da Kellogg Foundation... tive convites para retornar aos EUA para doutorado (Houston, Texas), mas já sonhava com a Paris de meu personagem shakespeariano de Henry V, de meus amigos das máscaras e commedia dell'arte (que conhecera em Minneapolis) e de minha passagem por ali em 1970, a pão e leite comprados, com açúcar grátis pegado dos balcões de comércio e, só uma vez, com sorvete e frango assado, no dia em que As Begônias se reencontraram na rua, por acaso, após viajarem de carona desde Lisboa e antes de se separarem na Porte de la Chapelle, para novas caronas rumo a Londres e o desconhecido... foi quando li Michel Maffesoli sobre Dionísio e, graças a nosso amigo comum Vivaldo da Costa Lima, nos conhecemos num restaurante do Rio Vermelho...
Aqui o programa, fotos de Lúcio Mendes e recortes de jornal de A Torre em concurso, que registram conosco a presença do músico e compositor Tenison Del Rey, além de outras curiosidades...
Eu ainda faria em Salvador nessa época quatro espetáculos (entre 1984 e 1985), mas já começava a matutar em ir à busca do théâtre de la jeune lune, miragem que justificaria um doutorado em Paris, em antropologia social e sociologia comparada...
Atuei então com o pessoal da Medicina Preventiva (Naomar de Alemida Filho et al) em receptivos de bolsistas norte-americanos da Kellogg Foundation... tive convites para retornar aos EUA para doutorado (Houston, Texas), mas já sonhava com a Paris de meu personagem shakespeariano de Henry V, de meus amigos das máscaras e commedia dell'arte (que conhecera em Minneapolis) e de minha passagem por ali em 1970, a pão e leite comprados, com açúcar grátis pegado dos balcões de comércio e, só uma vez, com sorvete e frango assado, no dia em que As Begônias se reencontraram na rua, por acaso, após viajarem de carona desde Lisboa e antes de se separarem na Porte de la Chapelle, para novas caronas rumo a Londres e o desconhecido... foi quando li Michel Maffesoli sobre Dionísio e, graças a nosso amigo comum Vivaldo da Costa Lima, nos conhecemos num restaurante do Rio Vermelho...
Aqui o programa, fotos de Lúcio Mendes e recortes de jornal de A Torre em concurso, que registram conosco a presença do músico e compositor Tenison Del Rey, além de outras curiosidades...
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Cursos de máscaras em 1984
Em Minneappolis, participei de oficinas e vi espetáculos do grupo franco-americano Théâtre de la jeune lune, que me encantaram com suas acrobacias e referências à commedia dell'arte. Eles viviam parte do ano também em Paris e estão na origem de meu interesse em fazer doutorado por lá. Antes mesmo de voltar para Salvador, para o réveillon de 1983/ 1984, fui convidado (e aceitei) para dar curso de interpretação com máscaras no Teatro Castro Alves, em paralelo a curso de criação de máscaras com Ewald Hackler. A primeira leva desses cursos foi um scesso. A segunda, mesmo anunciada, sem motivação aparente, foi suspensa, como dão conta as notas abaixo... que, aliás, também registram a revelação da "jovem talentosa cantora Margareth Menezes", denúncias e comentários sobre reclamações relativas à premiação dos melhores do teatro baiano nessa época...
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Spring Romance: um mestrado (só) "prático"?
À época (1981/83), havia dois tipos de mestrado para a área de artes nos EUA: o Master of Arts, MA, para os interessados em carreira acadêmica, e o Master of Fine Arts, MFA, para os destinados ao mercado profissional do espetáculo. Também havia então o Latin American Scholarship Program for American Universities, mantido pela Fundação Fulbright (e, segundo meu orientador norte-americano, Robert Moulton, um meio dos EUA buscarem apoio na América Latina). LASPAU mantinha parceria com a CAPES (então Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior, do Ministério da Educação e Cultura), criada pelo grande educador baiano Anísio Teixeira e privilegiava a área de artes, o que acabava por beneficiar a Bahia, por conta de suas famosas Escolas de Artes universitárias. Concorri e ganhei uma das 10 bolsas disponíveis para o Brasil para 1981, ao lado de Deolindo Checcucci e Lia Rodrigues, da, à época, mesma Escola de Música e Artes Cênicas da UFBA (onde eu me encontrava), o que também aconteceu com ouros colegas baianos, como Harildo Deda, Yeda Maria, Jamison Pedra e Maria Adair, por exemplo.
Após curso intensivo de English as a Second Language na Universidade de Pittsburgh, em sua Cathedral of Learning, entre abril e agosto de 1981, segui para a U. of M., em Minneapolis, onde cumpri meu MFA em Interpretação Teatral, finalizando-o com o recital Spring Romance, que reunia uma peça de mímica, uma canção e seis cenas teatrais de períodos e gêneros diversos.
Este recital e a produção de três artigos, resultados parciais das atividades de pesquisa do mestrado, ao lado da obrigatoriedade de participar das audições de todas as produções (até sete por ano, que me levaram a compor o elenco de Henry V e Scapino) foram os requisitos para a obtenção do diploma de MFA. Todos os três artigos que então produzi estão publicados:
Dramaturgia brasileira em aulas de interpretação (publicado originalmente
O ator nu: notas sobre seu corpo e treinamento nos anos 80 (publicado originalmente em Art Revista da Escola de Música e Artes Cênicas, Salvador, UFBA, v. 5, 1982, p. 33-50 e, também, em BIÃO, Armindo, Teatro de cordel e formação para a cena: textos reunidos, Salvador, P&A, 2009, p. 371-384) - comentários e sugestões de preparação corporal para atores, com explícita indicação da capoeira, particularmente para sua formação na Bahia;
e Supporting Paper on Spring Romance: a Master of Fine Arts Acting Recital (publicado em BIÃO, Armindo, Teatro de cordel e formação para a cena: textos reunidos, Salvador, P&A, 2009, p. 357-369) - informações e reflexão sobre a seleção de material de referência e a preparação do recital.
Aqui o cartaz, programa e notícias de Spring Romance, inclusive da exibição, em Salvador, do documento áudio-visual do espetáculo (parcialmente recuperado em DVD de um desgastado VHS), bem como de uma oficina que foi sua consequência.
| arte de Gordon Purcell |
domingo, 4 de dezembro de 2011
Shakespeare, Anouilh e Oxum
Minneapolis reúne o minne, de água, na língua dakota, com o polis, de cidade em grego e, de fato, é conhecida por seus muitos lagos, pelo rio Mississippi e pela cachoeira de Minnehaha (a água que ri, que se enrola ou que, simplesmente, cai). Berço de Bob Dylan e Prince, Minneapolis, com a maior população ameríndia norte-americana urbana, forma, com sua vizinha Saint Paul, um importante aglomerado metropolitano (conhecido como The Twin Cities, as cidades gêmeas) no meio-norte dos EUA, local da melhor qualidade de vida no país.
Capital do estado de Minnesota (terra da água), conhecido como o The Ten Thousand Lakes State (estado dos dez mil lagos), onde fica a Universidade de Minnesota, cujo departamento de teatro é o mais antigo dos EUA (com cerca de 80 anos), é mais ou menos onde o vento do polo norte, que entra no continente pela Baía de Hudson, no Canadá, faz a curva, sugerida pelos grandes lagos norte-americanos (Superior, Huron, Erie, Michigan, Ontario). O frio aí é muitas vezes mais severo que o do Alaska. Suas tempestades de neve (blizzards) fecham o aeroporto local com frequência. A neve domina quase metade do ano. A temperatura fica abaixo de 0º C quase três meses e não é raro descer abaixo de 20º C negativos, chegando, com o fator vento (windchill), a menos 30º C.
Aí vivi de agosto de 1981 a dezembro de 1983, com bolsa da CAPES/ Fulbright, pelo programa LASPAU, Latin American Scholarship Program for American Universities, para um Master of Fine Arts em Interpretação Teatral. Assim fiz o Henry V e o Scapino e mais três participações em eventos artísticos (documentos abaixo), antes do Recital final do curso e ao lado da iniciação à pesquisa, que gerou três papers publicados. O último desses documentos contém minha admiração pelo poder das águas, nesse caso doce, de Oxum. Ora iê iê ô!
Capital do estado de Minnesota (terra da água), conhecido como o The Ten Thousand Lakes State (estado dos dez mil lagos), onde fica a Universidade de Minnesota, cujo departamento de teatro é o mais antigo dos EUA (com cerca de 80 anos), é mais ou menos onde o vento do polo norte, que entra no continente pela Baía de Hudson, no Canadá, faz a curva, sugerida pelos grandes lagos norte-americanos (Superior, Huron, Erie, Michigan, Ontario). O frio aí é muitas vezes mais severo que o do Alaska. Suas tempestades de neve (blizzards) fecham o aeroporto local com frequência. A neve domina quase metade do ano. A temperatura fica abaixo de 0º C quase três meses e não é raro descer abaixo de 20º C negativos, chegando, com o fator vento (windchill), a menos 30º C.
Aí vivi de agosto de 1981 a dezembro de 1983, com bolsa da CAPES/ Fulbright, pelo programa LASPAU, Latin American Scholarship Program for American Universities, para um Master of Fine Arts em Interpretação Teatral. Assim fiz o Henry V e o Scapino e mais três participações em eventos artísticos (documentos abaixo), antes do Recital final do curso e ao lado da iniciação à pesquisa, que gerou três papers publicados. O último desses documentos contém minha admiração pelo poder das águas, nesse caso doce, de Oxum. Ora iê iê ô!
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Scapino e a bicicleta...
Cresci no bairro de Roma, na península de Itapajige, em Salvador, Bahia, nos anos 1950. Nossa casa, na Rua Barão de Cotegipe, ficava já bem no Largo de Roma, uma de duas pracinhas então separadas por uma fábrica de óleos vegetais, uma padaria (de Seu Eládio), uma oficina de veículos e um terreno baldio, onde se armavam parques, circos e acampamentos de ciganos. Após 1970, quando saí de lá, as duas pracinhas, o terreno baldio, a fábrica, a padaria e a oficina foram transformadas numa nova (e grande) Praça de Roma. Nela, sobressaem a Igreja e o Hospital de Irmã Dulce (este já existia), uma garagem de ônibus (o velho SMTC, na esquina da Rua Barão de Cotegipe e da Avenida Fernandes da Cunha, na pracinha onde ficava nossa casa - esta hoje AEPI) e, ainda, o Hospital PAN São Jorge (antes só o nome do santo)...
A atual Igreja era o Cine Roma, que eu frequentava toda semana. Quando ganhei uma bicicleta, ainda com as duas rodinhas para assegurar o equilíbrio de crianças iniciantes, fui me exibir defronte do Cinema, mas caí numa curva mal controlada e recebi grande vaia e apupos dos presentes. Nunca mais subi numa bicicleta...
Muito depois, eu já com mais de 30 anos, em Minneapolis, na Universidade de Minnesota, onde então cursava meu Master of Fine Artes em Interpretação Teatral, após mais uma das audições obrigatórias, fiquei feliz ao saber ter sido selecionado para importante papel na montagem de Scapino, uma adaptação do clássico de Molière. Mas, também, fiquei desesperado ao saber que eu deveria abrir o espetáculo, circulando pelo palco de bicicleta (e entre mesas de um restaurante), saindo de cena por uma porta de duas bandas (daquelas de filmes de cowboy). Disse logo que eu não poderia fazer aquilo. Então, resolveram me designar um 'bike coach', com quem todas as manhãs eu passei a praticar bicicleta num estacionamento. Sofri, mas aprendi o suficiente para fazer (bem) o espetáculo (recortes abaixo). Só em uma das apresentações, para sair de cena pela tal porta de duas abas em balanço, eu precisei de ajuda de um colega (John Loprieno, que viria a fazer sucesso em soap operas nos EUA)...
Achei-me, a partir daí, curado do trauma da infância. Alguns anos depois, com um amigo francês, na região do Rio Loire, na França, resolvi ir a um supermercado próximo, de bicicleta, por uma pequena estrada, bem pavimentada, mas cheia de curvas. De início, tudo se passou bem... até vir um carro e eu perder o equilíbrio... perdi, perdi... e jamais de novo voltei a montar uma bicicleta...
O que na vida eu não sei como fazer, ensaiando, em cena, eu posso fazer bem, mas, mesmo repetindo, na vida, eu volto a não saber...
A atual Igreja era o Cine Roma, que eu frequentava toda semana. Quando ganhei uma bicicleta, ainda com as duas rodinhas para assegurar o equilíbrio de crianças iniciantes, fui me exibir defronte do Cinema, mas caí numa curva mal controlada e recebi grande vaia e apupos dos presentes. Nunca mais subi numa bicicleta...
Muito depois, eu já com mais de 30 anos, em Minneapolis, na Universidade de Minnesota, onde então cursava meu Master of Fine Artes em Interpretação Teatral, após mais uma das audições obrigatórias, fiquei feliz ao saber ter sido selecionado para importante papel na montagem de Scapino, uma adaptação do clássico de Molière. Mas, também, fiquei desesperado ao saber que eu deveria abrir o espetáculo, circulando pelo palco de bicicleta (e entre mesas de um restaurante), saindo de cena por uma porta de duas bandas (daquelas de filmes de cowboy). Disse logo que eu não poderia fazer aquilo. Então, resolveram me designar um 'bike coach', com quem todas as manhãs eu passei a praticar bicicleta num estacionamento. Sofri, mas aprendi o suficiente para fazer (bem) o espetáculo (recortes abaixo). Só em uma das apresentações, para sair de cena pela tal porta de duas abas em balanço, eu precisei de ajuda de um colega (John Loprieno, que viria a fazer sucesso em soap operas nos EUA)...
Achei-me, a partir daí, curado do trauma da infância. Alguns anos depois, com um amigo francês, na região do Rio Loire, na França, resolvi ir a um supermercado próximo, de bicicleta, por uma pequena estrada, bem pavimentada, mas cheia de curvas. De início, tudo se passou bem... até vir um carro e eu perder o equilíbrio... perdi, perdi... e jamais de novo voltei a montar uma bicicleta...
O que na vida eu não sei como fazer, ensaiando, em cena, eu posso fazer bem, mas, mesmo repetindo, na vida, eu volto a não saber...
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